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29 de maio de 2009 —

nesses dias de absoluta incomunicabilidade, descobri que o pensamento é uma função orgânica. Uma função incontrolada e incontrolável do ser humano. É uma função máxima, metafísica, super-real, cuja origem ou matriz até hoje não foi descoberta. Nem no organismo biofísico-químico que compõe o corpo material do ser humano, nem no tempo e nem no espaço cósmico.

Descartei, com alguma dificuldade, que o pensamento pudesse ser parte da alma, do espírito ou até do resultado de um sopro divino. Mas não pude separar o pensamento da energia cósmica. E foi aí que eu descobri a mente como um campo de energia eletromagnética e telepática, que faz do organismo humano um ser integrado nos sistemas da sociedade e no ilimitado ecossistema da natureza.

O pensamento é uma energia vital que permite ao ser humano a lembrança, a esperança, a ambiguidade, a intuição, a premonição, a consciência, a clarividência e a memória. Descobri então que todos estes atributos do pensamento fazem parte da consciência. A lembrança e a esperança, por exemplo, são como que um despertar e uma reavaliação da memória. Pois foi através da lembrança e da esperança que eu exercitei essa função mesma do pensamento. Durante os sessenta dias que passei incomunicável na cela solitária do quartel militar, o meu pensamento foi uma funçção orgânica que me manteve vivo e imune a todos os ataques das doenças físicas ou mentais.

Só o esquecimento é o antídoto orgânico para o pensamento. Ele é descarga automática que mantém a energia vital da mente em permanente equilíbrio dinâmico. O esquecimento é a válvula de escape da memória. É o processo destruidor-construtivo que mantém o fluxo energético de todo o nosso organismo. Quando a pessoa não esquece, a saturação energética da memória transforma o ser humano num marginal, num criminoso ou num qualquer tipo de esquizofrênico.

Embora eu não tenha conhecimento específico de neurologia, descobri, também, que a mente não está localizada exclusivamente no cérebro. Como disse, a mente é um campo energético-telepático e eletromagnético que atua em todo o nosso sistema nervoso, mas cujos efeitos se reproduzem em palavras, sons, cores, ritmos, gestos e imagens. Esses efeitos todos se organizam na linguagem.

A mente produz também essa espécie de energia cinética, o pensamento, capaz de atravessar qualquer tempo e qualquer espaço, mesmo o vazio, o vácuo, o tempo e o espaço indefinido. É capaz de penetrar o material mais compacto e impenetrável. È capaz também de interpenetrar o tempo-espaço. E de criar ou apagar todos os conceitos que utilizamos para descrever a natureza.

Foi a necessidade que tive de pensar – numa cela solitária absolutamente incomunicável – que me permitiu duvidar de tudo e de todos. A primeira desvinculação que sofri foi a da minha família. Logo depois me desvinculei de todas as leis estabelecidas. Dos mandamentos da religião, dos conceitos e preconceitos da sociedade, das regras e dos códigos políticos, dos parentescos dos parentes e da amizade dos amigos.

Fiquei só. Só eu comigo mesmo. Sozinho, só, sozíssimo.

Tive que repensar tudo na minha vida. Mais de 180 dias, mais de 4.320h e mais de 259.200min. Pensando o pensamento. Um pensamento crítico e autocrítico. E, pela primeira vez, absolutamente original. Surgindo de dentro de mim mesmo.

Nesses dias de prisão incomunicável eu consegui abrir a porta de ferro, quebrar a pequena grade da parede e derrubar as paredes e o teto de cimento da cadeia. Aí eu caminhei no tempo absoluto e no espaço absoluto só com o pensamento. Mais tarde eu identifiquei esse pensar como uma espécie de meditação oriental. Li nos budistas, nos taoístas, nos hinduístas, que essa era a única forma de chegar ao aconhecimento absoluto.

Não cheguei.

Benedicto Monteiro, Belém do Pará – 1993. Transtempo

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