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24 de maio de 2010 — por sorriso

Sábado… WE ARE THE ROBOTS!

Não poderia deixar de comentar a minha noite de sábado. Passei o dia lendo o Nostradamus da Democracia Alexis de Tocqueville e resolvi sair para espairecer, aproveitando que um velho amigo estava pela cidade e me chamou para ir numa casa chamada Bossa Nova. Antigamente, quando morava no São Francisco, tinha muita curiosidade de conhecer o lugar, mas nunca houve uma oportunidade que valesse a pena.

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Em que posso lhe ser útil?

Parece que o dia chegou: vinte e dois de maio. Mesmo com a curiosidade já manifesta, eu na verdade tenho um pouco de aversão a esse tipo de lugar. Boates são lugares em que as pessoas parecem robôs programados por alguma entidade superior. É como se fôssemos personagens do The Sims e que precisássemos sair para nos relacionar, encontrar alguém e interagir com outros. Isso tudo contaria pontos para o jogo da vida, no qual as pessoas vivem na esperança de encontrar alguém que as complete e que também deseje ser feliz para sempre. Isto posto diga-se: reproduzir e acumular patrimônio.

Nesse dia não foi diferente. Existia um método para as pessoas entrarem. Muitos tinham que ficar do lado de fora, tomando chuva, porque existia um procedimento para entrar na casa que fazia a fila se estender. Pra completar, as pessoas só poderiam entrar duas a duas. Nesse caso, o casal de amigos meus entrou antes. Quando chegou a minha hora, o segurança pôs-me em preparação: “Você conhece o sistema da casa?”, perguntou-me. Eu respondi que não. Logo depois ele me pergunta: “É fumante?” Novamente respondo que não. Como se eu tivesse dado as respostas certas de um jogo vindo dos programas do Sílvio Santos, abriu-me a porta e apontou para o guichê no qual deveria retirar minha comanda.

Muito bem, eu estava dentro do sistema, mas mais parecia alguém que queria hackeá-lo ou uma disfunção dentro daquele ambiente. Contive-me no meu isolamento enquanto aguardava a cerveja pedida ao garçom Maradona. El gordito já não é o mesmo e a idade o deixou lento e com pouca agilidade. Meu pedido demorou dez minutos para vir. Quando finalmente achei que iria desfrutar da minha primeira cerveja gelada do dia, o Maradona dá um bico na bola que a manda para a puta que pariu: “Sua comanda não está liberada, você tem que ir até o caixa pra fazer isso”. Constatei que realmente eu era uma disfunção naquele sistema. Pelo menos dessa vez não fui vítima de nenhum segurança intolerante como em outras ocasiões.

Sábados a noite parecem ser os dias certos para se sair. Parece que todos entregam suas vidas durante cinco ou seis dias da sua semana, para que finalmente no sábado possam se libertar da escravidão dos dias de trabalho. Mas, ao contrário do sentimento de liberdade que essa situação possa manifestar, percebo justamente a extensão da escravidão dos dias normais de trabalho. Reservado em mim mesmo, observando o comportamento das pessoas, notei coisas que não consigo expor com palavras, pelo menos não com a compreensão que tenho nesse momento. Mas posso dizer que as pessoas não agiam de forma racional. Racional no sentido de saberem o que estão fazendo e porque estão fazendo. Mas isso não quer dizer que a racionalidade não estaria presente no pensamento dessas pessoas. Um homem branco alto e ligeiramente bonito observa ao seu redor mulheres que sejam compatíveis com o seu biotipo, simpáticas e que valham o risco da sua ação. Encontrando o tipo ideal formulado a partir de seus cálculos racionais, cria formas de se aproximar dela para tentar estabelecer uma relação. Pode-se utilizar de palavras doces, palavras engraçadas ou o convite para uma dança. Ao responder o gesto, a mulher faz os mesmos cálculos racionais com relação ao seu parceiro. Nesse momento os dois já conhecem a intenção que um tem para com o outro, mas não o manifestam de imediato. É preciso tentar falsear a decisão racional para ter certeza de que o cálculo que gerou a ação não foi um equívoco. Estabelecido o contato inicial e as intenções do casal compartilhadas de forma adequada e na hora adequada, iniciaria-se uma relação entre dois seres que irão procurar, no final das contas, e sendo funcionalista ao extremo, constituir família, reproduzir-se e acumular patrimônio.

É claro que dei o exemplo de modelo familiar tradicional e socialmente aceito como esteticamente ideal (sem julgar se esse modelo é adequado ou não, e também sem julgar as consequências na estrutura social pelo estabelecimento desse padrão), mas esse modelo serviria também para casais homossexuais, tanto masculinos quanto femininos.

Mesmo com tantos cálculos racionais acerca de uma ação a tomar, parece que estes não procuram refletir o porquê de tomar determinada ação. Mesmo que levada à condição extrema esse motivo seja no fundo reproduzir-se e acumular patrimônio, parece-me que esse desejo implícito não é manifesto no ato da ação social por esses indivíduos. No final das contas, age-se como uma forma de instinto (talvez movido por esse desejo implícito) e não se procura refletir o ato em si no momento de sua ação.

Como o dia de sábado foi dedicado ao estudo da obra de Alexis de Tocqueville, podemos interpretar o fenômeno que apresentei a partir da leitura que Tocqueville faz da igualdade social e da liberdade política contida em A Democracia na América.  De forma simplificada, que poderia ser aprofundada num futuro artigo, maior e com uma leitura mais profunda sobre as ideias que lanço aqui, entendo que a contribuição de Tocqueville para esse tema está justamente na análise que faz sobre os regimes democráticos e a distinção entre igualdade de condições e liberdade dos indivíduos. Muitas das ideias de Tocqueville mais tarde podem ajudar a entender a leitura que Weber faz do Estado e da formação das estruturas burocráticas deste. Também entendo que Tocqueville propõe algumas leituras que em certa medida vão complementar as de Marx no entendimento da sociedade civil, principalmente no que tange a atomização para a participação política na sociedade.

Basicamente, Tocqueville propõe que, ao ser dada a igualdade social de condições a todos os cidadão, “essa mesma igualdade que permite a qualquer cidadão conceber esperanças, fá-los individualmente frágeis; limita suas forças ao mesmo tempo que alarga seus desejos” (p. 112). Na sua visão, ao serem dadas as igualdades de condições, os seres humanos perseguiriam obrigatoriamente seu bem-estar, nem que para isso fosse necessária relegar a própria liberdade. Por consequência disso, o individualismo seria consequência natural nas sociedades democráticas: “O egoísmo é um vício tão antigo quanto o mundo; não é exclusivo de nenhum tipo de sociedade. O individualismo, pelo contrário, é de origem democrática e ameaça desenvolver-se à medida em que as condições vão se igualando.” (p. 107). Para Tocqueville, os indivíduos nas sociedades democráticas estariam fadados a escravidão de seu bem-estar.

Tocqueville aponta que a libertação viria justamente com o rompimento pelas pessoas da escravidão do seu bem-estar para tomar nas mãos o futuro das sociedades. Utiliza-se para isso o exemplo dos Estados Unidos, país em que a população vê “com efeito, que sua liberdade é o melhor instrumento e a maior garantia de seu bem-estar, pelo que amam inseparavelmente as duas coisas” (p. 116). Contudo, se olharmos para a própria sociedade estadunidense hoje, percebemos que Tocqueville tinha uma visão romântica sobre a democracia nascitura da América.

Se voltarmos para o nosso fenômeno, percebemos muito desse processo individualizador na nossa vida cotidiana. Onde estaria nossa tábua de salvação se não no rompimento desses padrões e o estabelecimento da retomada de nossos destinos para nossas mãos? Na própria liberdade. Não a pseudo-liberdade que nos vendem enlatada e que nos permite comprar uma faca guinsu ao clique do botão do controle remoto. Mas a tão sonhada liberdade, com a qual Tocqueville também sonhava, que nos permitirá conhecer o nosso meio tão bem quanto deveríamos conhecer a nós mesmos e que, por conta disso, permitirá que possamos decidir de fato sobre as nossas próprias vidas. Sobre o futuro das sociedades humanas.

O grande problema é que a liberdade traz consigo a responsabilidade e, por conseguinte, o medo. Paulo Freire em seu livro, A Pedagogia do Oprimido, já falava sobre isso. Resta saber se estamos preparados para enfrentar esse medo ou, acho que a a grande questão é, se um dia realmente iremos querer enfrentar esse medo. Uma coisa nisso tudo é fato: Enquanto isso não acontecer, WE ARE THE ROBOTS!

Referências:

Livro “Igualdade Social e Liberdade Política”. Compilação de textos de Alex de Tocqueville, selecionados e apresentados por Pierre Gibert com a tradução de Cícero Araújo. Publicado pela editora Nerman em 1988 http://bit.ly/cYdO8d;

Livro “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. Publicado pela editora Paz e Terra em 1987 http://bit.ly/bs28F2;

Música “Die Roboter (o robô) – The Robots (versão em inglês)” da banda Kraftwerk http://bit.ly/cfNfcl. Álbum The Mix CD (versões em alemão e em inglês).

Revisão do texto por Christina Fuscaldo.

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